quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Isso Pra Aquilo ou A Palavra e o Fato


Pra perfumar, escrevo lírio, incenso e terra molhada
Pra descansar, cama macia, abraço e edredom
Pra animar, Tim Maia, felicidade e saia rodada
Pra vadiar, short curto, cabelo solto, bicicleta e música do Tom


Pra enfeitar, escrevo flor, esmalte vermelho e blusa furta-cor
Pra adiantar, F5, sapato baixo e disposição
Pra namorar, vinho, beijo na boca e um tiquinho de amor
Pra trabalhar, café forte, vocabulário, poder de síntese e inspiração


Pra florear, escrevo estampa, exagero e embromação
Pra passear, vestido longo, primavera e Paris
Pra encurtar, tesoura, vírgula, ponto e edição

Pra amar, basta você... porque o resto...
o  resto é rascunho de rima barata,
é rabisco de nãos

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Meu grande amigo, meu pior namorado


Outro dia meu telefone toca bem cedo. Era o meu primeiro namorado me dizendo carinhosamente: “Aline, eu adoro aquelas suas historinhas”, se referindo aos posts que faço aqui no Caneca. Achei engraçado o interesse desse menino que foi tão importante na minha vida e que mesmo hoje, com toda distância imposta pela nossa adultice, ainda o é.


Ele foi um péssimo namorado! Pés-si-mo! Metia os pés pelas mãos numa frequência cardíaca. Eu tinha a impressão de que estava em teste 24 horas por dia. Mas, sejamos justos, também tinha a certeza de passar com distinção. Mas, isso é fato facilmente perdoável quando, pensando sobre isso, revejo aquelas duas crianças andando pelas ruas do Setor Sul.

Éramos isso. Só duas crianças que se conheciam desde sempre, mas que se enxergaram pela primeira vez numa madrugada do Dia dos Namorados do ano de 1989. A partir daí, eles se aventuraram, desembestados, na história de um amor adolescente, correspondido, mas vítima de muitas confusões, proibições, joguetes e infantilidades. Mas, sobretudo um amor construído com muito respeito e amizade.

Foi uma história gestada nas escadarias do Edifício Karina, no Setor Sul, onde as horas corriam fáceis, nos fazendo esquecer que éramos namorados. Ficávamos ali, sentados nos degraus discutindo um pouco de tudo, formando conceitos, falando de carros (que eu nunca conhecia), poesia, família, vestibular, e, raramente, construindo sonhos – o DNA dos futuros que, talvez por isso, não tivemos.

Nunca foi um namoro comum. Não tínhamos essas regras de nos falarmos ou nos vermos todos os dias. Mas, quando isso acontecia – fosse um telefonema, fosse uma visita – era intenso. Me lembro com carinho de uma vez que ele, então vestibulando de Medicina, me ligou às 8 da noite. Desliguei, rouca, às 2 da manhã, depois de ouvi-lo bronquear: “é por isso que não posso falar com você todo dia.” Também me lembro das férias em que, separados por centenas de quilômetros, ignorávamos o valor do interurbano e passávamos horas conversando, conversando, conversando...

Um dos nossos programas preferidos era sentar nas pracinhas do Setor Sul e ver a tarde correr. Também perdíamos boas horas fazendo caminhadas por aquelas ruazinhas tortas do bairro observando casas, falando de passantes, numa inocência que envergonharia aqueles que nos proibiam de ficar juntos.

Quando alguma coisa dava errada – o que não era difícil – meu sentimento tinha febre alta. E meu sofrimento vinha em cólicas. Só pra ninguém me chamar de injusta depois de tantas lembranças boas, conto apenas que uma vez, eu tentando ajeitar as coisas lá em casa, tentando convencer meus pais que ele era “o cara” - o que ele faz? - ele briga na “boate da cidade” por causa de uma outra menina. As explicações vieram aos borbotões, mas essas intempestividades eram típicas dele. Outra vez, ele entrou numa festa onde eu estava e fingiu que não me via, sei lá porquê. Mas, tudo isso passava na primeira gracinha que ele me fazia, ou às vezes na segunda, ou na terceira...

Apesar das decepções e dos desencontros, devo àquele rapaz maluquinho a consolidação dos valores que aprendi em casa. Tenho a certeza que ele contribuiu para minha formação moral, pra que eu fosse mais segura de mim mesma, pra que eu soubesse me valorizar, pra que as facilidades e os ímpetos da adolescência não me corrompessem.

Até hoje, quando conheço uma pessoa, sinto falta da segurança que era namorar alguém que, como ele, me conhecia em gênero, número e grau. Que sabia de cor meus plurais, minha raiz, minha origem. E a mim não cabia mais do que ser apenas eu mesma. É certo que, pra ele, eu não poderia cantar aquela música do Kid Abelha, onde a Paula Toller diz “Eu tenho mil amigos, mas você foi meu melhor namorado”. Não. Isso ele não foi. Mas, ainda que as escadarias do Karina não soubessem, era uma profunda amizade que elas acobertavam. E o que é um namoradinho perto da sorte de se ter um grande amigo?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Minhas tardes com Roberto


O rádio ficava em cima da janela que dava pra um banco de areia branquinha, cercado das samambaias e palmeiras de minha mãe. Meu pai construiu aquele cantinho pra gente brincar, mas na hora da soneca dos meus irmãos menores, eu sintonizava na Nacional AM que, logo após o almoço, tocava as canções do rei. Então, eu deitava na areia, depois de ajeitar um montinho mais protuberante na altura da cabeça como um travesseiro, e me deixava levar pelo laralara de Roberto.


Não sei ao certo como isso começou, mas virou umas das mais doces rotinas da minha infância. Acho que foi com a Germana, que vivia na casa dos meus avós e a quem eu fazia companhia enquanto ela lavava a louça. Na maioria das vezes eu fingia que almoçava em casa, onde eu tinha de cumprir certas regras de etiqueta, e escapulia para comer de verdade com meu avô, onde era liberado devorar frutas como melão, mamão e melancia junto com comida. Além disso, eu gostava daquele cheiro de tabaco e da irreverência daquela casa, habitada por loucos que, sem hospício na cidade, eram abrigados pelo meu avô.

Fora o barulho de uma panela ou outra sendo lavada na cozinha e do ronronar reconfortante da geladeira, a casa inteira dormia embalada pelo ritmo romântico de Roberto. Acho que foram nessas tardes, deitada naquela areia branquinha que aprendi a sonhar... ficava ali cavalgando em estradas coloridas, que meu cérebro de criança pintava de rosa-claro com florzinhas azuis, sem ter sequer a noção do sentido real da música Cavalgada, até hoje minha preferida.

Amada Amante, Desabafo, Como é grande o meu amor por você e, claro, Detalhes, eram cantaroladas com capricho por aquela menininha magricela, cabelos muito finos e muito loirinhos. Não sei exatamente por que lugares eu passeava ouvindo sua voz, onde é que aquele calhambeque (bibip!) me levava naquelas tardes, nem porque aquelas canções me afetavam tando, me conquistando numa idade em que era mais simples gostar do Palhaço Carequinha (hiiiii entreguei!). Mas, Roberto era, sim, minha estrada de Santos.

Nos natais, quando ele aparece tão pontual na Rede Globo, sempre prefiro ver o show sozinha ou entre os muitos íntimos pra não dar o vexame de cair no choro perto de gente que não conheço bem. Porque, até hoje, quando toca uma canção do Roberto, volto pra aquele cantinho feito de areia e samambaias. E, então, fecho os olhos de novo pra escutar o barulhinho da geladeira azul da minha infância. E sinto saudades de mim mesma.