segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Dando a cara pra bater

Quanto eu tinha uns quatro anos, talvez um pouquinho mais, um vizinho de fundos morreu. Coisa feia. Ele viajava num caminhão carregado de madeira, que caiu numa ponte. O homem foi atingido por uma das toras e não teve a menor chance de sobrevivência. Por causa da gravidade do acidente, minha mãe não tinha coragem de ir ao quintal sozinha porque, do muro que dividia nossas casas, era possível ver o morto sendo velado.

Talvez por pura teimosia resolvi provar a ela que eu podia fazer isso. Caminhei até lá sozinha, à noite (na verdade não tenho certeza se era à noite, mas é como eu me lembro da cena) e espiei pelo muro. É macabro, mas até hoje tenho a imagem do rosto dele, de quem não guardo mais sequer o nome.

Foi importante pra mim, já naquela idade, saber que eu não tinha medo. Sabe-se lá Deus porque é que um ser humano de quatro anos precisa se saber forte. Talvez pela mãe frágil? Não sei. Mas fato é que - isso eu também me lembro com clareza - quando atravessei o quintal minhas pernas tremiam. Medo eu tinha, mas podia encarar. Pronto. E acho que isso mudou minha vida pra sempre.

Agora, estou eu aqui precisando atravessar o quintal mais uma vez. Como naquela época, minhas pernas tremem, mas do outro lado do muro o que se vê é uma porta aberta.

5 comentários:

João Camargo Neto disse...

Que história linda. Me inspirou. Também sempre enfrentei meus medos. Até hoje, tenho medo do escuro, mas não deixo de atravessar a distância que separa a rodovia da casa dos meus pais quando vou à noite e de ônibus. É só uma ilustração, porque sei que do outro lado do muro (quero dizer, do pasto) tem jantinha quente me esperando, bem como cama aconchegante e três abraços que não têm preço.

Andrea Regis disse...

Nina! Mesmo tendo atravessado mares em busca da felicidade (achei!) confesso que tenho medo de fazer o caminho de volta. O que me conforta é saber que do lado de lá do quintal continuarei sendo feliz...

Honestino Afonso Xavier disse...

bom dia.. .

como sempre... me iluminando em seu sorrizo.. que bom que existem pessoas com esta luz..

parabéns pelas postagens... sempre sensíveis.. e inspiradoras..

abraços.. de um amigo.. virtual..

Rimene Amaral disse...

que quintal é esse?

Deire Assis disse...

que esse quintal tenha jaboticaba, goiaba vermelha, cajueiro e tudo o mais que crianças pequenas e grandes gostam.

não sei o que é, mas nem preciso dizer q te desejo toda sorte do mundo... pronto! já disse.

bjo!