terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Velas na janela

Assim que fizer noite acenderei pequenas velinhas e as colocarei na janela. Vou reproduzir, ainda que solitariamente, uma tradição linda da minha infância. Eu morava numa cidadezinha pequena e charmosa e, todo dia 2 de fevereiro, assim que a noite caía, velas e candeeiros acesos eram dispostos nas janelas em homenagem a Nossa Senhora das Candeias ou Nossa Senhora da Luz. Me lembro de me debruçar no peitoril da janela pra ver a rua toda iluminada e, ainda que eu não soubesse que aquilo remontava à purificação da Virgem, acho que era, justamente pureza, aquela sensação que enchia meu coração.

Hoje eu sei que a festa começou há milhares de anos e lamento que ela seja rejeitada por boa parte da população. Na época de Moisés, acreditava-se que mulheres que davam à luz ficavam impuras e, por causa disso, deviam comparecer até 40 dias após o nascimento de seus filhos a um templo carregando oferendas como cordeiros e pombos. Quando Maria, mãe de Jesus, foi se purificar, Simeão teria dito que seu filho seria a luz dos povos, daí a origem da história.

Trombei de novo com a tradição de Nossa Senhora das Candeias quando morei na Europa. Por lá, a vela é dada a mulher mais jovem da casa, que representa a virgem. Vestida de branco e com uma grinalda de flores na cabeça, ela acorda as pessoas da família para comerem crepes. Com isso, os mais antigos pensavam garantir uma boa colheita de trigo. La Chandeleur é bem familiar e aprazível, ainda que a maioria das famílias se atenha simplesmente à feitura dos crepes.

Me incomoda viver numa cidade que ignora tradições e cuja religião é a novela das oito. Mas, como ladrar apenas não muda meu destino, hoje acenderei velas na janela...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Sonhando com tempo

Fiz uma coisa diferente nesse domingo: acordei cedo. Pra quem acha que eu tinha um programa interessantíssimo, é bom deixar claro que saí da cama apenas para tomar um bom café da manhã e... ficar de papo pro ar! O fato é tão inusitado porque passo a semana inteira com o despertador programado para às 7h15 e, não raro, escolho dormir mais uns minutinhos a tomar café em casa.

Nas manhãs dos dias úteis, odeio aquela sensação de não ser dona do meu tempo, de negar ao meu corpo – quase sempre cansado e mais afeito as noites do que as manhãs – o merecido repouso. Então, antes mesmo de abrir os olhos, me torturo pensando porque não estudei para fazer alguma coisa que me permitisse ser a soberana única de minhas horas. E, todo dia, como quem tira sarro, meu cérebro manda a mesma mensagem: tá perdendo tempo, menininha! Vai se atrasar! Resignada, saio da cama como um leão despenteado e a sensação ruim só acaba no banho ou no momento em que bebo uma boa caneca de café.

Por tudo isso, no fim de semana, é sagrado acordar por mim mesma, só quando meu corpo decide. Mas, para minha surpresa, quando o despertador tocou nesse domingo, por volta das 8 horas (madrugada), apesar de não estar saltitante de alegria, acordei tranquila para preparar café, crumpets (uma espécie de rabanada salgada), bacon e suco de laranja. Comi (acreditem, isso importa pra mim) e pronto. Estava tudo certo. Eu teria tempo sobrando, item que, concluí, anda mais caro pra mim do que sono.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Artesão de amor e morte





Ela estava lá, no meio de um amontoado de armas espalhadas no asfalto para serem destruídas numa ação entre a Polícia e o Poder Judiciário. Feita com pedaços de madeira, cano de ferro e alumínio moldado, ela parecia pedir que adivinhassem sua história. O crime estava ali, esculpido por mãos habilidosas que, durante horas do ano de 1989, deixaram desenhados naquele revolver um coração (símbolo do amor), um peixe (símbolo dos cristãos) e, bem marcado, o nome de alguém que queria pecado assinado e reconhecido.


Seu nome que bem podia ser Severino, filho de Severo ou Divino. Um pescador nas horas vagas, um artesão, um lenhador. O assassino veio depois daqueles sorrisos, daqueles amores, cheiros e beijos. O mal foi esculpido pelo coração de um artista que apreciou, talvez, aquela flor no cabelo preto lustrado, o vestido rodado, florido, que o esperavam no fim de tarde, de tomando banho, lá no portão.

O perfume o embriagava e ele bebia suas mentiras doces, como quem bebe vinho de bacana. Talvez ela se chamasse Germana, Joana, Matilde. E devia rir, arreganhar todos seus dentes brancos, fazendo-o se sentir como se uma lamparina de querosene bom se acendesse dentro dele, que se entregava àquelas mãos de cera, que também alisavam Tonho, José ou seria Joaquim, seu amigo, seu vizinho, seu irmão.

Olhando pra aquela arma que, em meio uma tantas outras, esperava por um rolo compressor que aliviaria os arquivos do Judiciário, vi Falcão voltando mais cedo pra casa, seco de sede daquele corpo de fogo, daquela paixão que dava razão a seus dias. E ele, que pensava que ela o esperava ali o dia inteirinho, de pé no portão, ouviu gemidos vindos do fundo daquela casa branca com roseiras bem plantadas em dias de alegria.

Coração rasgando no peito, entrou escondido, acuado, já sabendo o que ia achar. Deu com sua mulher, sua "Maria", se aninhando com Tonho, João ou, quem sabe, José. E, ali mesmo, parado em meio às ferramentas que usava pra esculpir o rosto dela na peça mais linda que jamais pensou em criar, viu uma tragédia abusada entrar, descarada, sem pedir licença. Mais tonto em que nas noites onde enfiava seu nariz nos cabelos de sua dama, sentiu o ódio invadir, calmo, vingativo, absurdo, frio. Queria morte, queria vingança mas, pobre ou não, ele tinha nascido com a elegância natural dos homens destinados à arte.




Então, esquecido sob a sombra daquele rosto de barro no qual ele trabalhava todas as noites, se debruçou na arma que ele fez questão de fabricar com suas próprias mãos. Gravou no metal, com batidas caprichadas de um prego, um coração, um peixe e o nome que, a partir de agora, traria consigo: FALCÃO. E com esmero e capricho enfeitou sua libertação.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Amor de tatuagem


Acho que nunca ouvi do meu pai e da minha mãe a frase Eu te amo. Se ouvi, também não registrei. Mas, não se espantem. Não cresci traumatizada porque na minha casa, independente dessa frase – tão comumente repetida atualmente – pingava amor do teto, escorria amor pelas paredes, comíamos amor com feijão, bebíamos café com amor e dormíamos cobertos por ele. Acho que essa história de dizer Eu te amo não era moda na época em que cresci. Mas, quando se tem amor de verdade em casa, essa frase é completamente dispensável.

Acho bacana saber que os pais de hoje dizem isso facilmente aos seus filhos, tanto melhor que eles saibam. Eles talvez usem do artifício porque – ao contrário do que acontecia na minha época de criança – não têm tempo para demonstrar este sentimento aos seus rebentos. Eu trabalho das 8 às 18 e, na hora do almoço, corro para resolver problemas, ir a médicos, dentistas, mandar lavar roupas, consertar alguma coisa, comprar presentes ou fazer supermercado.

Depois das 18, arrumo o apê, que só é decentemente cuidado uma vez por semana, quando a gentil Selma se ocupa dele pra mim. Tudo isso fora os aniversários, o cinema (preciso me manter atualizada), os compromissos sociais, o Orkut (meio moderno de fazer contatos), o Twitter, os amigos que precisam de atenção, a família (pra quem sobra cada vez menos tempo), os livros que me esperam e me espreitam como se me desafiassem.

Ainda não tive filhos, mas se os tivesse, acho que me sentiria muito culpada em ter tão pouco tempo pra eles. Essa garotada de hoje precisa (e muito!) de Eu te amos. Queria ter a sorte de ter muitas crianças, mas, mais ainda, de não precisar reafirmar meu amor a toda hora. Desejaria, como aconteceu com meus pais, que os meus filhos soubessem disso, naturalmente, como eu sabia (e sei!). Porque é fácil esquecer uma frase, mas ninguém tira de você aquele amor que, num abraço, olhar ou carinho, decide ficar, como tatuagem de alma.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Carta para Papai Noel



Querido Papai Noel,



Tá chegando o Natal. Eu percebi pela iluminação das lojas que, de um momento pra outro, se encheram de luzinhas coloridas e enfeites vermelhos e verdes. Vi também as propagandas na TV com promoções imperdíveis para toda família e o aumento do número de produtos como panetones e decoração natalina no supermercado que frequento. Acho que daqui a alguns dias devem iluminar a cidade inteira, porque já vi os caminhões instalando aquelas lâmpadas que deixam Goiânia tão linda. Mas, Papai Noel, resolvi te escrever porque preciso dizer que não gosto do Natal.

Eu já gostei, sabe? Houve uma época em que eu esperava o ano inteiro pelo aniversário de Jesus. Gostava de acordar um dia e ver todas as minhas tias ouriçadas com a idéia de montar um presépio, discutindo ideias, elaborando estratégias pra reproduzir, com a maior perfeição possível, a cena bíblica do nascimento do Menino. Mas, nem era isso que eu mais apreciava. Nesse tempo, algo mágico acontecia comigo. O tal "espírito natalino" fazia um ninho dentro de mim, suavizava minha vida, elevava minha fé, renovava as crenças no bem. O Natal me afetava, verdadeiramente.

Na verdade, eu ainda espero o ano inteiro pelo dia 25 de dezembro, mas eu sempre me frustro porque aquela magia de antes não acontece mais. Eu tento até recuperar isso, sabe? Faço lá minhas orações, corro atrás de perus, molhos especiais, presentes. Escolho um vestido bonito, muitas vezes vermelho, mas, depois de tudo, a única sensação palpável que tenho é mesmo o cansaço. Às vezes, penso em chamar vizinhos, família, amigos mais próximos e refazer o presépio, que minha família apelidava carinhosamente de "Lapinha". Mas, ainda acho que não é isso. Alguma coisa morreu em mim, Papai Noel, ou o Natal verdadeiro é privilégio da infância?

Com a proximidade da data, cheguei a pensar em ignorar a festa, pedir uma pizza e ficar em casa vendo um filme, sem frustrações ou grandes expectativas. Suspeito, caro Papai Noel, que esse sentimento não seja só meu. Seriamente, desconfio que as pessoas em geral não guardem mais que a tradição pura e simples de festejar o dia. Fazendo, então, essa confissão difícil, bom velhinho, peço com todas as forças que coloque na minha meia nesse dia 25 de dezembro, o espírito de Natal, de fraternidade, de interiorização, de renovação de fé. Quero aquela magia de volta!

Pra não ser mal educada, agradeço, do fundo do coração, Papai Noel, os bons presentes que tive esse ano, especialmente, os livramentos que me concedeu e a força para encarar, com alegria, cada um dos meus dias. E, se por acaso, caro Papai Noel, suas renas resolverem vir para esses lados, imploro para que se lembre com carinho do meu pedido e que o senhor tenha o bastante para encantar árvores de Natal, bolas, perus, panetones, luzes e almas.

Com amor,

Nina

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Minhas pontes são míopes



- Tia Nine, por que você vive trocando de tio?


- (Glup!) Porque a tia Nine quer encontrar o melhor tio do mundo pra você.

Acho que todo mundo sabe da grande paixão que tenho pela minha sobrinha, Lara. Mas, ela pode ser desconsertante. Essa característica, entretanto, me estimula a reflexão, me faz lucidar, passar a limpo meus pensamentos. Com esta observação inocente, essa menininha - que conheceu APENAS dois outros tios em seus quase seis anos de vida - me fez pensar no filme As Pontes de Madison. Apaixonado por uma dona de casa (Meryl Streep), o fotógrafo interpretado por Clint Eastwood tenta convencê-la a deixar a família alegando que a certeza do amor é algo que se tem apenas uma vez na vida.

Gente, como eu invejo aquela convicção. Fico me perguntando como é que as pessoas sabem disso, principalmente, no início das relações. Porque quando gosto "de com força" de alguém acredito, piamente, que é amor. Mas depois esse sentimento vai se transformando e aquela certeza se esvaindo até que que eu perceba que não estava tão certa assim. Nesse ponto eu já dei tudo de mim, já fui até o fim e fico com aquela sensação de que foi em vão, de que fui enganada pelos deuses. Me sinto como um cachorrinho que fez mil e uma estripulias por uma lingüiça de plástico.

Mas, também não posso dizer que gastei "Eu te amos", que os tenha desperdiçado. Todas as vezes que um deles saía de minha boca era motivado por uma sensação legítima, ainda que equivocada. Porque o amor que acredito é o amor que dura, apesar de. Contudo, essa é explicação um tanto complexa pra minha sobrinha. Mas, é uma lembrança dela, ainda bebê, que vem ao meu socorro quando me angustio com o assunto, me perguntando porque um sentimento assim não chega pra mim como uma propaganda de refrigerante: MATE SUA SEDE!

Lara fala pelos cotovelos, numa profusão de palavras, ansiosa por recitar seus raciocínios. Mas, quando ela não conhecia mais que meia dúzia de palavras, registrava com palminhas toda sua felicidade cada vez que lhe dizia EU TE AMO! Olhos brilhando, sorriso largo e palminhas para aquela demonstração de amor que, julgávamos, não ser compreensível para um criança tão pequena.

Essa memória me faz pensar que amor não precisa ser dito pra ser compreendido. Não precisamos de “Eu te amos” como garantia. A necessidade da certeza é, talvez, o que desanda a graça tão necessária a esse sentimento. Amor, seja ele o bom ou não, o “para sempre” ou "o provisório", precisa ser apenas aplaudido. Ponto. E palmas para os que têm coragem de amar, cegos pela incerteza; certos de que amar, com certificado de garantia, talvez seja mesmo coisa de filme.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Isso Pra Aquilo ou A Palavra e o Fato


Pra perfumar, escrevo lírio, incenso e terra molhada
Pra descansar, cama macia, abraço e edredom
Pra animar, Tim Maia, felicidade e saia rodada
Pra vadiar, short curto, cabelo solto, bicicleta e música do Tom


Pra enfeitar, escrevo flor, esmalte vermelho e blusa furta-cor
Pra adiantar, F5, sapato baixo e disposição
Pra namorar, vinho, beijo na boca e um tiquinho de amor
Pra trabalhar, café forte, vocabulário, poder de síntese e inspiração


Pra florear, escrevo estampa, exagero e embromação
Pra passear, vestido longo, primavera e Paris
Pra encurtar, tesoura, vírgula, ponto e edição

Pra amar, basta você... porque o resto...
o  resto é rascunho de rima barata,
é rabisco de nãos