domingo, 10 de maio de 2009

Saudade é madrasta


Ontem fui ao shopping com uma amiga minha que queria ajuda pra escolher uma bolsa pra mãe dela. Shopping cheio, gente com sacolas, filas pra fazer pacote de presente, participar de promoções, essas coisas. Há alguns anos não compro presente para o Dia das Mães. Ao contrário, fico tentando lembrar os presentes que ganhei da minha, enquanto ela estava por aqui. E, hoje, já bem cedo, essa idéia me ocorreu de novo
feito um motorzinho na minha cabeça: o que minha mãe me deu de mais valioso? Quais foram os momentos mais bacanas que vivemos juntas? E, claro, uma enxurrada de lembranças foi chegando.

Me lembrei de uma vez que ela, decepcionada com o resultado de umas encomendas que havia feito para que eu pudesse viver um personagem num desfile de 7 de Setembro, desmontou um vestido novinho que ela havia usado uma única vez, para fazer um lindo pra mim. Também me recordei dela descendo a rua de sombrinha em punho (odiava sol) comigo ao lado indo pra casa de uma costureira que tinha estudado comigo na infância e quem eu não me lembrava mais com clareza: "Minha filha, o nome dela é tal, estudou com você não sei onde e ela te adora", escutei ela me dizer num gesto solidário não só da mãe que quer proteger a filha, mas, principalmente, de prestigiar a moça, humilde e de família pobre.

Também me veio à memória o dia em que ela viu um vestido azul na vitrine de uma confecção, que só vendia por atacado, e decidiu naquele exato instante que a roupa era minha, tinha sido feita pra mim.

- Delux, é atacado, tem de comprar no mínimo seis peças. Esquece!, eu disse.

- É seu, ainda que eu tenha que comprar os outros cinco!, disse entrando na confecção, de onde saiu um quarto de hora depois com o vestido debaixo do braço e um brilho no olhar tão intenso que chegava a ser infantil!

E bastou fechar um pouco os olhos pra lembrar dos últimos dias que passamos juntas. Enquanto meu pai afivelava minhas malas, organizava tudo que era necessário pra minha mudança pra Europa, a gente se divertia. Eu ensinava a ela usar a internet e, grata, ela me ensinava a fazer crochê. E do nada, no meio disso tudo, ela me colocava no colo em silêncio, como também foi nossa melhor conversa.

Estávamos na fazenda do meu pai e ficamos só nós duas na casa. Ainda estava cedo e, então, colocamos nossas cadeiras na área, onde já batia um pouco de sol, e ficamos conversando até que ela cochilou e eu, aproveitando, também fechei os olhos. Compreendi naquela hora a imensidão do laço que nos unia e foi assim que o silêncio fez parte de um dos momentos mais perfeitos da minha vida.

Relembrando isso tudo, entre outras coisas, sinto uma vontade enorme de ler a última carta que ela me escreveu e onde ela dizia: "Nina, minha filhinha, continue com a coragem que você sempre teve e tudo dará certo. A saudade, a sua falta é indescritível, mas acima de tudo está o nosso (ela era sempre ela e meu pai) amor por você e nosso desejo de ver você realizar todos os seus sonhos. Isso, sim, nos dá força e nos faz felizes quando sentimos a distância que nos separa."

Depois de reler isso, concluo, sem dificuldade, que a saudade realmente é madrasta, mas que herdei dela a coragem de acreditar que, sim, tudo dará certo. Afinal, o que ela me deixou de mais precioso foi a honra de ser sua filha e carregar comigo – ainda tão vivo - o privilégio de seu amor.

11 comentários:

Deire Assis disse...

faz isso com a gene não, Nina... estou sem net e lendo seu post numa lan. e engolindo o choro.

sempre q vc escreve sobre sua mãe penso o qão valioso é a possibilidade de vc conseguir escrever sobre o que foram, o q viveram... o q se constrói em vida não se vai com a morte. certeza absoluta!

bjo linda!

Rodrigo Alves disse...

Saudade é madastra, mas as boas e eternas lembranças são mãe de colo quetinho e aconchegante. Não posso deixar de agradecer pelos belos momentos que dividiu conosco, leitores. Abraços.

Cibele disse...

Nina,
Sei que estes dias não são nada fáceis, como também sei que tem a força suficiente para os ultrapassar. Mas creia... Saudade não é masdastra... Saudade é a memória do coração. Beijinhos!

Luisa Dias disse...

Oi, Aline... Obrigada pela generosidade de dividir sua saudade e sua memória de maneira tão delicada. Quando presenteio o meu filho, sempre penso isso, o que vai ficar depois. Parece que sua mãe acertou nas escolhas... Pena a gente não ter se visto na sexta! Bjos!

Cássia disse...

Lindo, Aline, de brotar água nos olhos.

Luciene Cruz disse...

Sem palavras, só lágrimas...

Andrea Regis disse...

É madastra, porque mãe a gente tem apenas uma.
Lindo o texto. Morri de chorar.
Beijos
Andrea

C r is disse...

eu pensei em escrever sobre o dia das mães no meu blog. pq de 3 anos pra cá, este dia tem tido um significado mais especial pra mim, ele me deixa triste... não uma tristeza profunda, mas uma tristeza daquelas que a gente não sabe explicar... eu achei seu texto lindo e ele me motivou a escrever sobre o dia das mães no meu blog, mesmo atrasada.

Anônimo disse...

Amigaaa... chorei como um bebê ao ler isso! Pensei tb em tudo que já passei e na força que vc já me deu!
Obrigada!

Demas disse...

Aline,
tudo vai dar certo, sim.
Beijo.
Saudade.

Projeto Eutanásia disse...

Aline,

como lhe disse, entrei no blogue de bobeira. Como não consegui parar de ler, agora, estou em prantos. Lindo texto! Choro de "madrasta" da minha mãe. Com o seu texto, você me fez lembrar tanta coisa boa dela. De nós dois.

Obrigado.

Beijos, alegrias e poesias,

Daniel Rubens Prado.