quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Minhas tardes com Roberto


O rádio ficava em cima da janela que dava pra um banco de areia branquinha, cercado das samambaias e palmeiras de minha mãe. Meu pai construiu aquele cantinho pra gente brincar, mas na hora da soneca dos meus irmãos menores, eu sintonizava na Nacional AM que, logo após o almoço, tocava as canções do rei. Então, eu deitava na areia, depois de ajeitar um montinho mais protuberante na altura da cabeça como um travesseiro, e me deixava levar pelo laralara de Roberto.


Não sei ao certo como isso começou, mas virou umas das mais doces rotinas da minha infância. Acho que foi com a Germana, que vivia na casa dos meus avós e a quem eu fazia companhia enquanto ela lavava a louça. Na maioria das vezes eu fingia que almoçava em casa, onde eu tinha de cumprir certas regras de etiqueta, e escapulia para comer de verdade com meu avô, onde era liberado devorar frutas como melão, mamão e melancia junto com comida. Além disso, eu gostava daquele cheiro de tabaco e da irreverência daquela casa, habitada por loucos que, sem hospício na cidade, eram abrigados pelo meu avô.

Fora o barulho de uma panela ou outra sendo lavada na cozinha e do ronronar reconfortante da geladeira, a casa inteira dormia embalada pelo ritmo romântico de Roberto. Acho que foram nessas tardes, deitada naquela areia branquinha que aprendi a sonhar... ficava ali cavalgando em estradas coloridas, que meu cérebro de criança pintava de rosa-claro com florzinhas azuis, sem ter sequer a noção do sentido real da música Cavalgada, até hoje minha preferida.

Amada Amante, Desabafo, Como é grande o meu amor por você e, claro, Detalhes, eram cantaroladas com capricho por aquela menininha magricela, cabelos muito finos e muito loirinhos. Não sei exatamente por que lugares eu passeava ouvindo sua voz, onde é que aquele calhambeque (bibip!) me levava naquelas tardes, nem porque aquelas canções me afetavam tando, me conquistando numa idade em que era mais simples gostar do Palhaço Carequinha (hiiiii entreguei!). Mas, Roberto era, sim, minha estrada de Santos.

Nos natais, quando ele aparece tão pontual na Rede Globo, sempre prefiro ver o show sozinha ou entre os muitos íntimos pra não dar o vexame de cair no choro perto de gente que não conheço bem. Porque, até hoje, quando toca uma canção do Roberto, volto pra aquele cantinho feito de areia e samambaias. E, então, fecho os olhos de novo pra escutar o barulhinho da geladeira azul da minha infância. E sinto saudades de mim mesma.

7 comentários:

Luisa Dias disse...

Acho que nós duas estamos precisando de um bom vinho para curar nossa nostalgia... Também estou exatamente assim, sentindo saudades da geladeira azul da minha mãe e de uma porção de coisas que ficou lá atrás. E acho que o Roberto traz muito isso, com suas músicas de final de ano, Natal, tempo de recordar.

Maíra disse...

Aline...me fazendo chorar no intervalo do almoço

Gra Porto disse...

Que doce!

Maísa disse...

Eu sempre vivo suas histórias com você em suas lembranças.

Gra Porto disse...

Oi Aline!
Temos é? Uai, que coisa boa! Pois receber isso de uma pessoa q a gente admira é perceber q msm q o dia tenha sido uma m., a vida vale a pena!
Gde bjo e uma ótima semana!

Ps: Eu tb acho isso, embore confesse q seus micos ganham fácil fácil dos meus, rs.

criadora de orquídeas disse...

Querida, hoje te procurei no orkut e nao a encontrei. Vim logo para o cantinho do coracao, que tinha certeza, a encontraria em algum texto lindo. Me deparei com esse que termina com uma frase nostalgica: "saudades de mim mesma".
Vc esta sabendo que ja estou nas Filipinas, ao lado do grande amor da minha vida? Meu filho Adriano. Hoje, particularmente, viemos passar uns dias na ilha onde se encontra Boracay, uma das mais lindas praias que ja vi, com o mar azul clarinho, parecendo de mentira. E eh claro, me lembrei de vc e vim no orkut mostra-la para meu filho...Estranho, nao a encontrei!!!!!
Estou com saudades...Me conte como esta.
Beijos

MaruxVB disse...

Me lembro de deitar sobre a gangorra, e sem musica, passando até pelo canto magicos dos passaros, como o sol batia no rosto e o vento fazia aquele barulho ao passar pelos ouvidos, rugindo bravo, ao mesmo tempo que é docil e facil de se domar... ventos e arvores cantam tbm, pode apostar! ^^

gosto de como escreve! dá vontade voltar do começo de novo!